sexta-feira, junho 8

Diga a verdade e saia correndo!

Essa é uma frase que está num imã de geladeira que comprei aqui para casa. A identificação foi instantânea. É difícil me abrir, falar o que penso, ou sinto, às vezes. É difícil também ser ouvinte. Mas o mais difícil ainda é saber o momento que pede uma "confissão" e o momento de deixar o silêncio falar por si. As palavras ecoam e são eternas. Por isso, é importante ter cuidado com o que se diz. Pode-se dizer o oposto logo depois, ou mesmo demonstrar o inverso... Mas o que fazer com o que já se ouviu?

Ou o que se faz é sempre mais importante e anula o que se diz? Sou contra expressar sempre em palavras tudo que se pensa ou que se sente. Temos pensamentos e sentimentos efêmeros, momentâneos que podem virar poeira um instante depois. E se os mesmos, ao serem traduzidos em linguagem falada, têm o poder de incomodar, entristecer ou machucar o receptor, por que expressá-los? Se for importante e essencial para o emissor, então ele deve ir em frente. Mas com a consciência dos possíveis efeitos sobre o outro.

Já tentei provocar com perguntas e indagações uma mudança, na verdade, um resgate de algo que estava ficando para trás. Tentava me agarrar nas palavras, para ver se elas tinham a capacidade de mudar a realidade que eu estava presenciando. E o que eu recebia como resposta era só a confirmação de imutabilidade. Agora, depois de alguns anos, ao lembrar desse momento, vejo que fui boba. Se eu recebesse palavras doces contrárias ao que, de fato, estava acontecendo, teria eu me sentido melhor? Nesse sentido, o que se fala pode ser irrelevante. Ponto para o silêncio.

É por isso que tenho dificuldade em “dizer coisas”. Parece que, ao fazê-lo, estou “oficializando” reflexões e emoções que posso não ter cinco minutos depois. Digo isso, porque presto atenção e valorizo o que me falam. O pior é que, normalmente, o que me marca é o que não gostei de ouvir.

Mas aí me ocorre outra questão importante: E o filtro que usamos sempre ao adotarmos a postura de receptores de uma mensagem? É que nem reportagem isenta: não existe a prática de ouvir sem a nossa participação na compreensão dessa mensagem. Nunca escutou a frase “fulano só ouve o que quer?” Será que é só o fulano mesmo, ou todos nós, querendo ou não, interpretamos absolutamente tudo que chega a nossos ouvidos?

Ok. Não dá para viver num filme de Charles Chaplin. Palavras são necessárias, contornam e ressaltam nossas ações, sentimentos, etc, etc, etc. Mas então é preciso ter coerência, não!? Só que muitas vezes afirmamos uma coisa querendo dizer outra... por educação, por não querermos machucar o outro, por proteção individual e tantos outros motivos. Não é difícil???

Um imã de geladeira me deixou filosófica...


4 comentários:

sandro barretto disse...

Pois é... a expressão "falar o que pensa" é muito abrangente. São tantas as coisas que pensamos e não falamos que quando decidimos colocar algumas delas pra fora, parece que estamos dizendo tudo que está na nossa cabeça. A gente se esquece que ainda tem muita coisa lá dentro. ;-)
bjão

Glauco Paiva disse...

Me diga: Onde vc comprou esse ímã... tinha pra homem?

Hilton Galvão disse...

Nietzsche ja dizia: Nao existem fatos e sim interpretações ... Este teu texto poderia se resumir nesta frase, gostaria de conversar mais contigo, preciso de alguem pra discutir estas ideias, um grande abraço

Tiago M. disse...

As palavras possuem muito poder. Podem derrubar, levantar, alegrar, entristecer, etc...
E existe sim diferença de quem ouve pra quem fala. Se eu te contar uma mentira que te deixa feliz, você vai acreditar tanto nela, que se tornará uma verdade pra ti.
Palavras expressam sentimentos e/ou pensamentos, e as pessoas são contraditórias demais em relação à esses dois fatores.
Creio que os filósofos não fizeram nem metade daquilo que falaram, mas suas interpretações pra vida sempre nos ajudam de alguma forma.
Portanto... Confio nas palavras, mas não tanto nas pessoas.
Em algum momento elas revelam se quem diz ser, realmente é.

P.S.: "Diga a verdade e saia correndo", é um provérbio Iugoslavo.